
As folhas douram e caem,
todos os cachecóis do meu armário ganham vida e se esparramam
no meu chão, cadeiras, sofá,
por cima dos meus móveis e por dentro das minhas gavetas
e por cima da minha pele.
Sobem dos copos de isopor de café quente lentas espirais,
fumaça branca,
perfumada.
Doces nuvens cinzentas e macias me guiam pra casa,
e aqueles olhos,
ah! aqueles olhos brilham
e Maio escorre dos meus lábios
como mel.

Estou orgulhosa de ter visto a Marcha passar pela rua. Estou orgulhosa de ver as fotos e de reconhecer nelas vários, vários rostos amigos. Estou feliz com a marcha mesmo sabendo que teve bandeira do PT; mesmo sabendo que, entre as pessoas que participaram, tinha gente que na hora de conversar sobre na fila do banheiro feminino recrimina vítimas de estupro. Sinto orgulho.
Não sinto vergonha de não ter ido.
Enquanto a marcha avançava lindamente pela rua, eu também estava em marcha. Dentro de casa, dentro de mim. Explicando pra gente que eu amo tudo pelo qual eu passei que me fazia ter vontade e medo de marchar. Explicando, mais de um ano depois, tudo que eu senti quando fui estuprada e usando essa palavra - estuprada estuprada estuprada! - até parar de ter medo dela. Comparecendo finalmente diante do tribunal do corpo e me vendo absolvida de todas as condenações.
Me encontro em casa frente a uma grande caneca de chá de erva-cidreira, de pijama, com o rosto refletindo todo o cansaço das últimas horas e, ao mesmo tempo, a tranquilidade absoluta de saber que depois dessa, não há nada mais no meu caminho.
Queridos e queridas, eu também estava lá! Juro! De outro lugar, sem cartaz, sem tinta, eu também marchei. E na próxima, sem dúvida, marcharei abraçada em todos vocês.
As fotos lindonas são daqui.

Todos os sentimentos mais belos e bondosos desfilam pra mim, passarela interna. Lembro que sei amar, que sei estar contente, que sei me sentir completa e cheia, cheia de esperança. Lembro que tenho os mais belos sonhos e os mais terríveis pesadelos, que sei enxergar metáforas e aquecer corações.
Só não hoje.
Hoje eu dou um jeito de sobreviver na vida concreta. Contas a pagar, cartão do banco, almoço caprichadinho, café doce, silêncio, meias. Vão passar com o tempo. Hoje, são só o que tenho, junto com a minha esperança.

Uma voz começa a gritar na minha cabeça, sempre e sempre, mais alto e mais alto: não vai dar certo. Não há a mínima esperança. Me diz que se eu parar de me mexer agora mesmo tudo voltará a ser como antes e ninguém sairá machucado.
Essa voz mente.
Mas mente com tanta insistência, passa dias girando na minha cabeça a cada minuto com tantas dúvidas, tão profundas, tão intensas, e eu. Eu.
Acabo sem saber o que responder.

Quando eu tinha 10 anos, fiquei um ponto abaixo da média numa prova de Matemática. Foi a primeira vez que tirei uma “nota baixa” e minha reação instintiva foi escondê-la dos meus pais. Quando minha mãe descobriu, fez o que toda mamãe faria: me arrastou pelos cabelos até o meu quarto e se trancou comigo lá dentro por duas horas, me empurrando de um lado para o outro e me perguntando se eu era uma retardada que precisava ser tirada do colégio e posta num colégio para retardados.
E aqui vem a coisa realmente dolorosa em se ter dez anos: em uma cena absurda como essa, eu sinceramente acreditava que quem estava errada era eu. Eu pedia perdão. Eu chorava, recebia ordens de não chorar, chorava ainda mais e com isso ia descendo uma espiral na qual cada momento me fazia mais patética, mais e mais num desastre infinito no qual qualquer absolvição da parte dela me elevaria novamente a uma condição menos terrível.
Todo esse tempo, e o monstro não era eu.

Pelo amor de todo o panteão das divindades das mais diversas culturas, regiões, fases históricas e localizações geográficas, não me deixa me enganar de novo.

Inspirou fundo todos os sonhos do mundo
e eles a transformaram numa menina de verdade.

Eu também tenho um corpo!, gritei.
Tenho um corpo um corpo um corpo!
E sorrindo desnudei diante de olhos incrédulos
as glórias da minha anatomia.

E então alguma coisa apareceu na minha cabeça e me tirou toda a voz,
todas as certezas
e todas as dúvidas.

Queria te dizer que te concedo o perdão que nunca pediste. Que nunca vais pedir. Que não conseguirás jamais lembrar relativo ao que é, e se lembrar, esquecerás de novo.
Infelizmente para mim, começo a te entender. Começo a me perguntar se a maldição que te acometeu me tomará como vítima também. E se eu sobreviverei a isso.
Deus mente, mãe. Mentiu pra ti com a promessa de um bebê rechonchudo e saudável que virou uma criancinha doente, um saco de batatas recebendo sangue direto na veia e vomitando pelo chão da sala. Mente pra mim quando eu sonho que posso ter minha própria filha.
Nos teus raros momentos de lucidez tu conseguias enxergar o monstro que te tornavas diante dos meus olhos - a fúria, os tapas, os estilhaços, os gritos. Quanto a mim, é nos meus raros momentos de perda da lucidez que consigo encontrar uma saída.
E quando acordo descubro que ela era uma mentira enviada por Deus para me punir - por ter nascido.
Eternamente eu estarei na tua frente com todas as verdades queimando nos meus olhos e na minha língua, e incapaz de falar.

Se eu despencasse dessas nuvens tristes tristes tristes
Te seguisse pelos labirintos todos todos todos
E ao permitir que tu te ristes ristes ristes
Te enredasse nos meus cabelos todos todos todos
loiros
vermelhos
castanhos
loiros
vermelhos
castanhos
loiros
vermelhos
castanhos
Se com as unhas eu te arrancasse até a alma alma alma
E me dobrasse em duas em cima da tua cama cama cama
E pisoteasse esmagasse essa tua calma calma calma
Com um coração pulsante de quem ama ama ama
cordas
corações
tomadas
cordas
corações
tomadas
cordas
corações
tomadas
Ai se eu me fizesse eterna eterna eterna
Ziguezagueando entre teus dedos dedos dedos
E tu me deixasses terna terna terna
Fazendo borboetas dos meus medos medos medos
sábados
pernas
enredos
sábados
pernas
enredos
sábados
pernas
enredos.

Segui a borboleta de asas azuis
cintilantes felizes encantadas,
borboleta de asas mágicas que farfalhavam
como um grande sonho.
Virou nas curvas e virei com ela,
virei-me nela.
Desapareceu numa esquina,
pensei:
melhor. Poderia estar me conduzindo ao caminho da
eterna
aniquilação.
Mas isso é o que pensei depois de tê-la perdido,
sabendo
que a seguiria rumo à eterna aniquilação
rindo
e cantando.

Desejos mortos, feitos de cinzas
e fogo.
Se eu me consumir em vermelho e laranja e brilho
eu sei que
desejarei para sempre.
Delírios de diamante que se transformam
em pó na minha boca,
que se embrenham nos meus pulmões em nuvens
negras
e se expelem em tosse e
fumaça,
sem luz sem ardor, ah!
Mas se eu me
consumir em vermelho e laranja e brilho
eu sei que
desejarei para sempre,
certo?

1.
Sei que tu estás aí em algum lugar. Talvez sentindo minha falta, talvez não - ainda. Não sei se temos tempo. Há uma parte de mim que sempre se pergunta se conseguirá sobreviver mais um dia.
2.
Tive que pular uma poça d’água enorme pra chegar em casa e me movi direitinho tão delicadamente, como uma cena de cinema que ninguém gravou. Queria que tivesses visto. Queria ter te abraçado naquele exato momento, ao invés disso aquela noite cozinhei minha melhor massa com molho, depois fui numa festa e não sei.
3.
Tu tá perdendo muita coisa, cara. Vem logo.
4.
Te procuro, mas à minha maneira. Quieta, sabe. Te encontrarei entre sorrisos discretos e copos de café. Te encontrarei dançando e chorando, indo dormir cedo ou acordando tarde ou não dormindo. Te encontrarei de maquiagem borrada ou mãos tremendo.
5.
Existe uma parte de dentro da minha pele onde todos os machucados ainda são visíveis, onde tu descobrirás sem dúvida o quanto eu já apanhei nessa vida e de quem. Teu coração de ouro será o coração da pessoa capaz de enxergar os abismos da minhapele por inteiro e ainda assim me amar.
6.
Me pergunto se conseguirei te encontrar

Era 30 de março - de março! -
e os jornais do dia não noticiavam um atropelamento
mas houve dois
ou três.